MÚSICA ATONAL E O DODECAFONISMO

por Guilherme Santin

Introdução

Neste artigo pretendo expor a música atonal como importante parte para a música erudita e para o pensamento sobre o que é música, assim também como apresentarei um de seus principais métodos de composição: o dodecafonismo.

Pretendo que a partir da leitura deste artigo, o eventual compositor que chegar até a este texto, talvez por curiosidade, querendo saber o que é a música atonal, desperte seu interesse o suficiente para “experimentar” a atonalidade e sua maravilhosa “liberdade” de composição.

Prossigamos então para uma breve introdução à música atonal e sua história.

1  A música atonal

A música, desde a idade média até o final do século XIX, era predominantemente composta dentro do sistema tonal. Porém, em 1865, Wagner compõe a ópera “Tristão e Isolda”, a qual possui a duração de cerca de três horas, e seu prelúdio apresenta a peculiaridade para sua época de nunca definir a tonalidade, criando assim a primeira grande manifestação do atonalismo. A partir desta ópera, surgem diversas discussões acerca o sistema tonal, sendo que alguns chegam a afirmar que o sistema tonal havia se esgotado, cedendo espaço para o que vem a ser conhecido como atonalismo.

Para melhor entendermos o que é a música atonal, destacarei algumas diferenças em relação à música modal. Primeiramente, o que observamos na música atonal, em contrapartida à música modal é a total ausência de uma nota central, que na música modal determina a possibilidade de seqüência de notas que a seguem na música (esta seqüência diferencia-se dentro dos variados estilos de composição, porém sempre é seguido a “regra” de composição tonal). Esta ausência de nota central, pode nos causar um certo sentimento de “confusão” e “aleatoriedade” nas primeiras audições de músicas atonais, devido a nossa tendência de entender a música dentro do sistema modal e tonal. Da ausência de uma nota central, também segue a ausência de tonalidade e modos, ou seja, na música atonal não existe algo como um acorde maior ou menor, e tampouco escalas ou modos como dórico, frígio etc. A música atonal é considerada por alguns críticos como o tonalismo levado ao extremo. O certo é que a música atonal trouxe para a música uma “liberdade” jamais experienciada antes.

Porém, essa liberdade da música atonal talvez fosse por demais confusa. Como compor uma música sem qualquer nota central e sem qualquer regra? Questionando-se desta maneira, Arnold Schoenberg foi o primeiro compositor a dar uma resposta.

2 Arnold Schoenberg e o dodecafonismo

Schoenberg já era familiar à composição de músicas atonais quando resolveu desenvolver um método de composição para tal tipo de música. Juntamente com dois alunos seus, Alban Berg e Anton Werber, passou a compor obras atonais que são conhecidas como dodecafônicas. O método dodecafônico de composição sugere a utilização dos doze notas conhecidas pela música ocidental de uma maneira organizada de tal forma que um som apenas venha a ser repetido apenas após a execução de todos os outros onze sons. Exemplificando, a nota Dó apenas será repetida após a execução de todas as outras notas. É notável que, desta maneira, não atribuímos à nenhuma nota o valor de “central”, sendo desta maneira, uma espécie de “democracia” musical.

A partir do dodecafonismo, surge um estudo aprofundado de método de composição para música atonal, chegando a ser tão complexo quanto (se não mais) que os métodos de composição de música tonal. Um dos métodos é a “matriz 12×12”. Imaginemos uma linha horizontal onde podemos ver as 12 notas. Agora, imaginemos que desta linha horizontal, de cada uma das doze notas origine uma linha vertical que nos demonstre também as doze notas (tomando o cuidado para que nenhuma nota repita em nenhuma das linhas). Teremos então o total de 48 séries dodecafônicas, levando em conta que podemos ler tanto da esquerda para a direita quanto da direita para a esquerda, de cima para baixo e de baixo para cima. Podemos organizar estas séries da maneira como quisermos, e variando a intensidade com o qual são tocadas, suas alturas, seus respectivos tempos, temos então um método de composição virtualmente infinito.

3 Atonalidade e a música popular

A atonalidade não atingiu a música popular com o grande furor que causou na música erudita. Porém, podemos perceber a influência em grandes compositores do século XX em diversas áreas da música. No Jazz e no Fusion, temos compositores como Miles Davis, Ornette Coleman e John Coltrane em sua última fase. No Rock, o principal expoente é Frank Zappa. No Brasil, temos músicos como Arrigo Barnabé nos discos Clara Crocodilo e Tubarões Voadores. Também temos o músico Wilson Gomes, que compõe músicas dentro de estilos como blues e jazz utilizando o método dodecafônico.

Conclusão

A música atonal teve importante papel na história da música erudita. Fez-nos questionar o que é a música, e qual a importância da tonalidade para a música. Fez-nos acreditar que a música pode ser feita sim sem uma nota central. O método dodecafônico foi criado para melhor organizar a música atonal.

Apesar da “pouca” (não acredito que tenha sido pouca, mas aqui escrevo em relação à música erudita) influência que a música atonal teve na música popular, acredito que a potencialidade da música atonal ainda está no ar, à espera de músicos corajosos o suficiente para “experimentar” a atonalidade na música popular. Já temos vários exemplos de que música popular atonal de qualidade pode ser feita, inclusive utilizando-se do método dodecafônico. O que nos falta talvez seja um pouco de coragem de “inovar”.

Referências bibliográficas

MOLINA, Sidney. Música Modal, Música Tonal, Música Atonal I.

http://www.cmozart.com.br/Artigo8.php

MOLINA, Sidney. Música Modal, Música Tonal, Música Atonal II: O Atonalismo.

http://www.cmozart.com.br/Artigo9.php

FERNANDES, Paulo I. B. Theodor Adorno, Arnold Schönberg e a música dodecafônica.

http://www.demac.ufu.br/semanadamusica/Textos/Texto07.pdf.

KOZU, Fernando. Schoenberg e o dodecafonismo.

http://fkoozu.multiply.com/journal/item/25/Schoenberg_e_o_Dodecafonismo

6 comentários sobre “MÚSICA ATONAL E O DODECAFONISMO

  1. ÒTIMO TEXTO gUILHERME. Queria destacar aqui uma interpretação que fora dada à música dodecafônica de Schoenberg, em alusão a tua afirmação de uma “democracia musical”. O contexto de emergência do atonalismo abrange a expansão das idéias comunistas e anarquistas pelo mundo, assim como a Revolução Russa em 1917. Por muitas vezes, Schoenberg fora questionado sobre sua inclinação política, suposta contrariedade à ordem e etecétera. Fato que ele negou vêemente.

    Abraço

  2. Tambem é interessante lembrarmos que na epoca quando se formou a escola de frankfurt, esses fundadores estavam a tentar se libertarem, ou melhor, tentar demosntrar as formas nas quais a ideologia dominante atuava, e a musica era uma delas. Sendo assim, a forma criada de atonal, vem ao encontro das teorias criticas, onde a preocupaçao maior era a de autonomia intelectiva e criativa do ser humano, podendo assim ser desenvolvido uma melhor relação entre os individuos, onde cada qual escutava e via o proximo.

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